domingo, 22 de novembro de 2009

Chuva que não passa

Às vezes, gosto de ir para casa pelo percurso longo. Demoro uns quarenta minutos a mais para chegar, mas gosto mais desse caminho. A estradinha não é asfaltada como a do percurso mais curto, mas há menos subidas e decidas na estradinha de terra. E a paisagem é muito mais bonita.
Eu gosto desse contato com a natureza. Gosto do verde que ronda a velha estradinha, do vento que balança as folhas. Gosto de observar as pessoas passando sem perceber que estou observando. Gosto de ficar pensando coisas que eu sei que vou esquecer assim que pisar na minha casa.
Mas algumas coisas a gente simplesmente não esquece. Ficam martelando na sua cabeça. Insistem em ficar.

Era uma quarta-feira chuvosa. Ventava e o céu estava bem escuro para as cinco horas da tarde. Estava do lado de fora da vendinha, me protegendo sob um toldo, esperando a chuva passar. Não sei por que esperava. Sabia que a chuva não ia passar. Com certeza iria chover a noite toda.
O Seu Zé da vendinha me perguntara se eu queria um guarda-chuva para ir para casa, mas eu recusei. Me arrependi um pouco... Agora, ele já tinha fechado a loja. O jeito seria ir na chuva mesmo. Não que a idéia não me agradasse.
Para mim, tomar chuva é algo mágico. Não sei por que eu tenho essa relação com a chuva. Ninguém gosta de ficar molhado. Por algum motivo, me agrada a sensação da água caindo do céu e batendo em seu rosto. É um pouco purificador, eu acho. Não sei direito como explicar.
Bom, sai na chuva mesmo. Estava bem forte. Em poucos segundos, já estava com as roupas encharcadas e a água já escorria pelos meus cabelos. Sorri e sai andando.
E logo aqueles pensamentos passageiros invadiram minha mente e me envolveram. Não sei dizer ao certo o que era, mas quando me dei conta, percebi que estava indo para casa pelo caminho de terra.
Comecei a me lembrar do meu pai.
Acho que faz uns 10 anos. Era um sábado nublado e eu sai com meu pai para tomar sorvete. Lembro que a estradinha estava fechada, pois estavam asfaltando ela. Então, tivemos que ir pelo caminho longo. Aliás, foi nesse dia que conheci esse caminho que eu tanto gosto. Chegamos à mesma vendinha que eu trabalho hoje, do Seu Zé, e compramos sorvete. Aproveitamos e ficamos por lá para ver o futebol. Eu adorava assistir futebol com meu pai!
Depois do jogo, fomos para casa e a chuva começou. Aquelas de verão. Lembro de ter me divertido muito naquele dia. E lembro também da bronca que tomamos da minha mãe.
Depois de pensar nesse dia com meu pai, acabei pensando em vários outros até chegar em casa. Devo ter lembrado de toda a minha infância. De tudo que passei até aquele dia. É aquele tipo de pensamento que não se limita só ao meu caminho de volta para casa.
Acho que nem prestei muita atenção no sermão da minha mãe. Fui direto para o chuveiro. O banho lavou o barro e a água da chuva, mas deixou ainda resquícios das lembranças do percurso. Fui para a cama com isso na cabeça.
Acho que estou ficando velho, assim como todo mundo. Mas não é algo que me agrada. Sou preso demais ao meu passado. E naquela quarta-feira percebi que ele estava morrendo aos poucos. E eu não podia fazer nada para mudar.
É claro que nem tudo morre. Mas grande parte da nossa vida vai embora sem percebermos. É natural. Você percebe que suas relações mudaram, assim como suas prioridades.
Algumas pessoas você só lembra que existem quando é forçado a lembrar.
Comecei a pensar que eu não devo mais ser assim. Às vezes, é preciso se desapegar do passado. Não é exatamente como passar uma borracha. Talvez, seja preciso apenas esconder essa memória, esse passado. Para assim, pensar no presente. E no futuro.
Mas não sei ao certo como fazer isso. Só sei que aquela quarta mudou a minha vida. E tudo por causa de uma chuva. A chuva que eu tanto gosto.

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sábado, 31 de outubro de 2009

Eu sou o seu cérebro...

Nessa semana, como de costume, tive uma aula de Legislação e Ética em Rádio e TV fantástica! Pelo nome, pode parecer a pior matéria para se estudar na faculdade de comunicação (depois de economia, é claro). Mas é de longe a minha aula favorita na faculdade nesse ano.
O professor passou um documentário muito interessante, chamado “British Rock”. O documentário conta um pouco a história do rock britânico, citando os maiores artistas do gênero, entre eles Beatles, The Animals, Rolling Stones, The Doors, etc. Recomendo muito para quem gosta de rock britânico!
A partir disso, o professor fez um link do documentário com um livro chamado “A Sociedade do Espetáculo”, do francês Guy Debord (1967), explicando o porquê de tanto sucesso dos Beatles: a febre deu-se por um conceito que chamamos de “show bizz” (o show é um produto, bussiness, negócio).
Debord disse que hoje somos a sociedade do espetáculo. Os meios de comunicação de massa proporcionaram a chance de o homem fugir do que é real, partindo para o “fantástico” (sem indiretas, é claro!) mundo que te manipula.

A sociedade da vida moderna prefere a imagem e a representação ao realismo concreto e natural, a aparência ao ser, a ilusão à realidade, a imobilidade à atividade de pensar e reagir

Logo, você é apenas um passivo. Na tal da liberdade que acreditamos, você é preso a tendências, mesmo sem perceber. É um tipo de socialismo mascarado: você segue padrões. E isso me fez pensar um pouco sobre a minha vida.

Daqui a um ano, vou me formar e ser um comunicador de verdade. Já sou um pouco, trabalhando com marketing e escrevendo neste blog. Mas serei, oficialmente, um comunicador no ano que vem, com direito a diploma e tudo mais!
Mas sabe de uma coisa? Estou estudando nesses quatro anos para te manipular. Aliás, é o que estou tentando fazer agora, não?
O conceito de comunicação hoje tem como base essa manipulação. Penso nas novelas, no sensacionalismo de algumas matérias jornalísticas, na publicidade. Tudo é parte de um show. O tal do “show bizz”.
Eu faço comunicação para te entreter, para você esquecer os seus problemas. Se eu quiser, posso tentar te convencer a acreditar em alguma matéria que eu fizer. Posso te vender produtos goela abaixo. É o meu trabalho.

E será que é o que eu quero? Logo eu, que falo tanto da liberdade. Que quero tanto a liberdade.

Sou dualista. E isso não me agrada. Será que é hora de rever conceitos?

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terça-feira, 29 de setembro de 2009

O garoto do sonho ao lado

“O pensamento de um homem é um caminho tortuoso. O caminho é livre. E por sua vez, o destino é desconhecido”.

Isabel não sabia o que fazer. Não sabia como havia chegado ali, não sabia por que estava ali. Só sabia que não podia olhar para baixo. Não deveria.
A garota sentia seus cabelos cacheados cada vez mais desarrumados por causa do vento forte. Normalmente, Isabel se importaria com isso, mas no momento tinha outras preocupações. Queria sair desse lugar.
Ficou um bom tempo com os olhos bem fechados e os braços cruzados sobre o peito. Imóvel. Com medo. Só abriu os olhos para olhar para trás, quando sentiu alguém cutucar-lhe as costelas. Alguém estava a chamando.
- Olha para o sol – disse o menino que havia cutucado ela.
Ele tinha um sorriso diferente. Era um sorriso cativante. Logo, ela olhou para o sol. Não podia recusar o pedido do menino.
O sol brilhava forte, em contraste com o céu azul, bem azul. Não havia nuvens no céu. Isabel fechou os olhos novamente, enxergando uma grande mancha vermelha e sentindo seu rosto corar com o calor agradável. O vento lambeu sua face, trazendo uma sensação de conforto. Que ar puro! Como não havia reparado nisso antes?
Voltou a si e olhou para trás. O menino não estava mais lá.
- Senta aqui comigo.
Ela olhou para onde não queria olhar. O garoto estava sentado à beira do penhasco.
- Não posso... – respondeu Isabel, hesitante.
- Por que não?
- Tenho medo de altura.
- Senta... – e sorriu. O que havia naquele sorriso?
Isabel sentiu-se como um pedaço de metal sendo atraído por um poderoso imã. E se sentou. Sentiu frio na barriga. Será que era por causa da altura?
- Meu nome é André. Como você se chama?
- Isabel. Pode me chamar de Bel.
- Por que tem medo de altura, Bel?
- Não sei... Sempre tive.
- Você não precisa ter medo de altura.
- Por que não?
- Porque você está do meu lado. E eu sei voar.
- Voar?!
- É. Eu acho que eu posso voar. Mas ainda não tive motivos para tentar.
- Eu espero que você nunca tenha...
Ele sorriu novamente para Isabel. Ela sentiu que ele realmente podia voar. Ele podia tudo que ele quisesse.
- Você não tem medo de nada?
- Tenho – de repente, André ficou sério. Seus olhos azuis encararam o nada sob seus pés.
- Medo de quê?
- Medo de não encontrar ninguém para eu compartilhar meus sonhos.
- Como assim?
- Preciso de alguém para compartilhar os meus sonhos. Eles não podem ser só meus.
- E quais são os seus sonhos?
- Você quer que eu compartilhe com você?
- Quero! – respondeu Isabel prontamente, mesmo sem entender o que André queria dizer com aquilo. Ele sorriu.
- Então, agora, você é a minha vizinha de sonhos. Seremos bons vizinhos.
Isabel não viu sentido no que André falara, mas sentiu-se feliz com a empolgação do menino.
André inclinou a cabeça para cima e fechou os olhos, com as mãos sobre os joelhos.
- Fecha os olhos você também.
E Isabel obedeceu.
Mas nada aconteceu.
Apenas continuou sentindo o vento em seu rosto, seus pés balançando sobre o nada e o sol sob sua cabeça.
- Está gostando? – perguntou André.
- Na verdade, não estou sentindo nada...
- Como não? Estamos compartilhando alguns sonhos. Você precisa se esforçar mais.
Isabel continuava não vendo sentido nas coisas que André dizia. Mas fechou os olhos novamente, tentando se concentrar em alguma coisa. E logo veio à sua mente o sorriso de André.
Pensou em planos. Pensou no que faria assim que deixasse o precipício. Quem sabe André não a tirasse de lá voando? Poderiam voar sobre o mar, para algum lugar distante e bonito. Poderiam jantar juntos ou passar a noite toda conversando. Afinal, ela queria saber mais sobre ele. Queria uma oportunidade para perguntar mais coisas para ele. Para conhecê-lo. Para tocá-lo.
Abriu os olhos. Ele a observava, com um olhar curioso. Sorriu.
- Agora, não tenho mais medo de nada. E você? Também perdeu seu medo de altura?
Isabel olhou para baixo e, para sua surpresa, estava com os pés mergulhados em um lago. Não estava mais em precipício algum.
- Perdi meu medo também.
André sorriu, balançando seus pés na água.
- Quer continuar compartilhando alguns sonhos?
- Pode ser.
E os dois fecharam os olhos novamente. Para sonhar mais um pouco. Para esquecer tudo ao redor. Para ficar longe da realidade.

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segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Uma voz no escuro

Disse para mim uma voz no escuro:

“Hei... você. É, você mesmo. Você já olhou pela janela hoje? Não? Por que não? Bom, já que é assim, posso te fazer um convite?

“Vai lá. Abra a janela. Olhe. Vê algo diferente? Ou o mesmo de sempre? Então, convido você a ver algo diferente. Olhe para aquele ponto avermelhado no céu. Que ponto? Você acha muita pretensão chamar o tão esplêndido sol de ponto? Saiba que não é. Porque grande não é o sol.

“Sinta-o. Sinta o poder desse ponto avermelhado sobre você. Sinta esses raios de calor que invadem seu peito junto com o vento matinal. Aquele dos cala-frios. O mesmo que balança as copas das árvores, que traz a chuva. Sentiu?

“Pois saiba que isso é o início. Não só o início do seu dia. Mas tudo bem. Encare-o como um ‘bom dia’. O melhor ‘bom dia’ que você receberá hoje.

“Respire. Bem fundo. Sinta o ar entrar em seus pulmões. Sinta a vitalidade crescer dentro do seu peito. Expire. Se espreguice. E comece seu dia.

“Já viu algo diferente? Ainda não? Caramba, vamos continuar, então.

“O sol está mais forte agora. Não é mais um ponto avermelhado. Mas continua sendo pequeno. Porque grande não é o sol, eu insisto.

“Bom, independente do que você for fazer agora, seja estudar, trabalhar ou caminhar no parque, faça-o dessa forma: repare nas pessoas à sua volta. Repare nos carros que passarem, repare na moça da barraquinha de flores. Repare nos sons, a paisagem sonora que você sempre esquece devido ao seu Ipod ou seu MP3. Repare nas árvores balançando, nas luzes do semáforo. Você vive o que vê. Sabendo disso, você verá o que você vive.

“Faça isso durante o dia todo. Almoce direito, trabalhe bem, dedique-se aos seus estudos. Repare nos seus colegas de sala, nas manias de cada um deles. Preste atenção no som da rua enquanto você está no seu trabalho. E olhe pela janela sempre. Encare o ponto avermelhado. Sinta-o.

“Será que alguma coisa mudou?

“Na verdade, não. Tudo foi diferente, mas tudo foi igual. Assim são os dias. Mas não é assim que vemos.

“O que muda sempre é sua maneira de ver o mundo. E tudo começa no ponto avermelhado.

“Grandes mudanças começam em pequenos atos. E pequeno é o sol. Grande é você.”

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Boa noite, Cinderela!

Foi bom enquanto durou. Mas agora é hora de ir. E acho que não volto nunca mais para você. Não fique chateada, o problema não é você. Sou eu. Sempre foi, não?

Boa noite, minha Cinderela.

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domingo, 23 de agosto de 2009

Um hino...

Havia um copo de Gim sobre a mesa. Vazio. A garrafa de Gim repousava no chão, tombada, ainda com metade de seu conteúdo, ao lado de várias revistas jogadas, caixinhas de comida chinesa e algumas roupas amassadas sobre o carpete.
Sobre a mesa, próximos ao copo, vários porta-retratos, canetas, pedaços de papel e CDs. Nos porta-retratos, sorrisos. Ocasiões felizes que pediram por uma fotografia. Nos papéis, números anotados, recados, comprovantes de compra e rabiscos.
A cortina de seda esvoaçava levemente com o vento noturno que entrava pela janela aberta. Na janela, via-se a cidade toda acordada, com milhares de luzes que vinham da rua e de prédios, sob o breu do céu. Pareciam pequenas chamas de velas. No céu, estrelas e algumas nuvens que escondiam a lua.
Tirando a bagunça, a casa parecia limpa. Os móveis eram caros e escolhidos com bom gosto. Nas paredes, cobertas com papel de parede de cores claras, quadros modernos e lustres que deixavam o ambiente à meia luz. Havia plantas espalhadas por todo o apartamento e muitas estantes, que abrigavam livros, mais fotos e alguns enfeites.
No corredor, mais algumas roupas e também sapatos, jogados aleatoriamente. As luzes do corredor estavam apagadas e o cômodo era iluminado apenas pela fresta de luz que escapava pela porta entreaberta do quarto.
No quarto, iluminado apenas pelos abajures sobre as mesas de cabeceira, havia mais bagunça ainda. Livros e DVDs espalhados pelo chão, canetas, bolsas, sapatos e roupas que foram reprovadas em alguma seleção. O rádio, ligado, ficava em um canto do quarto, ao lado do computador que, estranhamente, estava desligado. De frente para a cama, uma TV grande, ligada a um aparelho DVD. O controle remoto perdia-se de vista no meio da bagunça no chão, assim como a garrafa de vinho vazia e uma taça tombada, que derrubara seu conteúdo sobre o carpete, manchando-o com aquela cor púrpura.
Sobre a cama, travesseiros, edredom e lençóis, organizados desordenadamente. A cama era confortável e grande.

Na sala, restos de um jantar, recordações e inspiração.
Na organização, um pouco de dignidade e satisfação pessoal.
Na má iluminação, um pouco de tranqüilidade.
No corredor, o caminho.
No som, algo imperceptível.
Na cama, promessas e juras. Prazer e conforto. Carinho e segurança.

Ela e alguém.

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