Às vezes, gosto de ir para casa pelo percurso longo. Demoro uns quarenta minutos a mais para chegar, mas gosto mais desse caminho. A estradinha não é asfaltada como a do percurso mais curto, mas há menos subidas e decidas na estradinha de terra. E a paisagem é muito mais bonita.
Eu gosto desse contato com a natureza. Gosto do verde que ronda a velha estradinha, do vento que balança as folhas. Gosto de observar as pessoas passando sem perceber que estou observando. Gosto de ficar pensando coisas que eu sei que vou esquecer assim que pisar na minha casa.
Mas algumas coisas a gente simplesmente não esquece. Ficam martelando na sua cabeça. Insistem em ficar.
Era uma quarta-feira chuvosa. Ventava e o céu estava bem escuro para as cinco horas da tarde. Estava do lado de fora da vendinha, me protegendo sob um toldo, esperando a chuva passar. Não sei por que esperava. Sabia que a chuva não ia passar. Com certeza iria chover a noite toda.
O Seu Zé da vendinha me perguntara se eu queria um guarda-chuva para ir para casa, mas eu recusei. Me arrependi um pouco... Agora, ele já tinha fechado a loja. O jeito seria ir na chuva mesmo. Não que a idéia não me agradasse.
Para mim, tomar chuva é algo mágico. Não sei por que eu tenho essa relação com a chuva. Ninguém gosta de ficar molhado. Por algum motivo, me agrada a sensação da água caindo do céu e batendo em seu rosto. É um pouco purificador, eu acho. Não sei direito como explicar.
Bom, sai na chuva mesmo. Estava bem forte. Em poucos segundos, já estava com as roupas encharcadas e a água já escorria pelos meus cabelos. Sorri e sai andando.
E logo aqueles pensamentos passageiros invadiram minha mente e me envolveram. Não sei dizer ao certo o que era, mas quando me dei conta, percebi que estava indo para casa pelo caminho de terra.
Comecei a me lembrar do meu pai.
Acho que faz uns 10 anos. Era um sábado nublado e eu sai com meu pai para tomar sorvete. Lembro que a estradinha estava fechada, pois estavam asfaltando ela. Então, tivemos que ir pelo caminho longo. Aliás, foi nesse dia que conheci esse caminho que eu tanto gosto. Chegamos à mesma vendinha que eu trabalho hoje, do Seu Zé, e compramos sorvete. Aproveitamos e ficamos por lá para ver o futebol. Eu adorava assistir futebol com meu pai!
Depois do jogo, fomos para casa e a chuva começou. Aquelas de verão. Lembro de ter me divertido muito naquele dia. E lembro também da bronca que tomamos da minha mãe.
Depois de pensar nesse dia com meu pai, acabei pensando em vários outros até chegar em casa. Devo ter lembrado de toda a minha infância. De tudo que passei até aquele dia. É aquele tipo de pensamento que não se limita só ao meu caminho de volta para casa.
Acho que nem prestei muita atenção no sermão da minha mãe. Fui direto para o chuveiro. O banho lavou o barro e a água da chuva, mas deixou ainda resquícios das lembranças do percurso. Fui para a cama com isso na cabeça.
Acho que estou ficando velho, assim como todo mundo. Mas não é algo que me agrada. Sou preso demais ao meu passado. E naquela quarta-feira percebi que ele estava morrendo aos poucos. E eu não podia fazer nada para mudar.
É claro que nem tudo morre. Mas grande parte da nossa vida vai embora sem percebermos. É natural. Você percebe que suas relações mudaram, assim como suas prioridades.
Algumas pessoas você só lembra que existem quando é forçado a lembrar.
Comecei a pensar que eu não devo mais ser assim. Às vezes, é preciso se desapegar do passado. Não é exatamente como passar uma borracha. Talvez, seja preciso apenas esconder essa memória, esse passado. Para assim, pensar no presente. E no futuro.
Mas não sei ao certo como fazer isso. Só sei que aquela quarta mudou a minha vida. E tudo por causa de uma chuva. A chuva que eu tanto gosto.
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Eu gosto desse contato com a natureza. Gosto do verde que ronda a velha estradinha, do vento que balança as folhas. Gosto de observar as pessoas passando sem perceber que estou observando. Gosto de ficar pensando coisas que eu sei que vou esquecer assim que pisar na minha casa.
Mas algumas coisas a gente simplesmente não esquece. Ficam martelando na sua cabeça. Insistem em ficar.
Era uma quarta-feira chuvosa. Ventava e o céu estava bem escuro para as cinco horas da tarde. Estava do lado de fora da vendinha, me protegendo sob um toldo, esperando a chuva passar. Não sei por que esperava. Sabia que a chuva não ia passar. Com certeza iria chover a noite toda.
O Seu Zé da vendinha me perguntara se eu queria um guarda-chuva para ir para casa, mas eu recusei. Me arrependi um pouco... Agora, ele já tinha fechado a loja. O jeito seria ir na chuva mesmo. Não que a idéia não me agradasse.
Para mim, tomar chuva é algo mágico. Não sei por que eu tenho essa relação com a chuva. Ninguém gosta de ficar molhado. Por algum motivo, me agrada a sensação da água caindo do céu e batendo em seu rosto. É um pouco purificador, eu acho. Não sei direito como explicar.
Bom, sai na chuva mesmo. Estava bem forte. Em poucos segundos, já estava com as roupas encharcadas e a água já escorria pelos meus cabelos. Sorri e sai andando.
E logo aqueles pensamentos passageiros invadiram minha mente e me envolveram. Não sei dizer ao certo o que era, mas quando me dei conta, percebi que estava indo para casa pelo caminho de terra.
Comecei a me lembrar do meu pai.
Acho que faz uns 10 anos. Era um sábado nublado e eu sai com meu pai para tomar sorvete. Lembro que a estradinha estava fechada, pois estavam asfaltando ela. Então, tivemos que ir pelo caminho longo. Aliás, foi nesse dia que conheci esse caminho que eu tanto gosto. Chegamos à mesma vendinha que eu trabalho hoje, do Seu Zé, e compramos sorvete. Aproveitamos e ficamos por lá para ver o futebol. Eu adorava assistir futebol com meu pai!
Depois do jogo, fomos para casa e a chuva começou. Aquelas de verão. Lembro de ter me divertido muito naquele dia. E lembro também da bronca que tomamos da minha mãe.
Depois de pensar nesse dia com meu pai, acabei pensando em vários outros até chegar em casa. Devo ter lembrado de toda a minha infância. De tudo que passei até aquele dia. É aquele tipo de pensamento que não se limita só ao meu caminho de volta para casa.
Acho que nem prestei muita atenção no sermão da minha mãe. Fui direto para o chuveiro. O banho lavou o barro e a água da chuva, mas deixou ainda resquícios das lembranças do percurso. Fui para a cama com isso na cabeça.
Acho que estou ficando velho, assim como todo mundo. Mas não é algo que me agrada. Sou preso demais ao meu passado. E naquela quarta-feira percebi que ele estava morrendo aos poucos. E eu não podia fazer nada para mudar.
É claro que nem tudo morre. Mas grande parte da nossa vida vai embora sem percebermos. É natural. Você percebe que suas relações mudaram, assim como suas prioridades.
Algumas pessoas você só lembra que existem quando é forçado a lembrar.
Comecei a pensar que eu não devo mais ser assim. Às vezes, é preciso se desapegar do passado. Não é exatamente como passar uma borracha. Talvez, seja preciso apenas esconder essa memória, esse passado. Para assim, pensar no presente. E no futuro.
Mas não sei ao certo como fazer isso. Só sei que aquela quarta mudou a minha vida. E tudo por causa de uma chuva. A chuva que eu tanto gosto.
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